Além do Óbvio: Por Que 2026 É o Ano de Parar de Perguntar 'O Que a IA Faz' e Começar a Perguntar 'O Que Eu Quero Construir'
O Dia em Que Eu Percebi Que Estava Fazendo a Pergunta Errada
Eu passei meses perguntando “o que a IA consegue fazer?”. Um dia percebi que era a pergunta errada.
Se você, como eu, passou os últimos dois anos lendo manchetes sobre como “a IA agora faz Excel” ou “a IA agora escreve e-mails” ou “a IA agora programa”, tenho uma notícia: chegamos ao fim do mapa. O mapa da exploração, pelo menos.
A fase de descobrir as capacidades básicas terminou. Já sabemos que a IA pode gerenciar planilhas, criar apresentações, codificar, escrever relatórios, analisar dados, automatizar emails, controlar casas inteligentes, gerar imagens, compor músicas e debater filosofia. O catálogo de “coisas que a IA faz” está completo o suficiente.
O que não está completo — nem de perto — é o catálogo de “coisas que EU quero construir usando tudo isso.”
E essa mudança de pergunta, tão simples na superfície, está se mostrando a transformação mais profunda da minha relação com a tecnologia.
Karpathy Não Escreve Código Desde Dezembro
Andrej Karpathy — cofundador da OpenAI, ex-diretor de IA da Tesla, e provavelmente a pessoa mais citada neste blog — disse algo na semana passada que cristalizou tudo para mim.
Em uma entrevista ao podcast No Priors e depois na Fortune Brainstorm Tech, ele revelou que não escreve uma linha de código desde dezembro de 2025. Agentes de IA lidam com cerca de 80% das suas tarefas de codificação. Ele usa um “claw” chamado Dobby para controlar toda a sua casa — som, iluminação, segurança, persianas, HVAC, piscina e spa — tudo via mensagens de WhatsApp em linguagem natural.
Mas o que realmente me pegou não foi a automação em si. Foi a postura dele em relação ao resultado:
A IA às vezes não entrega o código perfeito, mas ele está aprendendo a deixar isso passar, porque ela entrega o resultado que ele quer.
E aí está a mudança de paradigma que eu demorei para entender. Para as tarefas que “só precisam funcionar”, a perfeição técnica é menos importante que a agilidade e o resultado. Karpathy não está otimizando código — está otimizando intenção.
Da Permissão à Vontade
O grande insight desse novo momento é que saímos da era da permissão para a era da vontade.
Não precisamos mais que a OpenAI ou o Google nos digam o que é possível. Quase tudo que é um projeto de negócio razoável já foi “resolvido” pela IA em termos de execução básica. O mercado de ferramentas de “vibe coding” — a prática de descrever o que você quer e deixar a IA gerar — atingiu $4,7 bilhões em 2025 e deve chegar a $12,3 bilhões em 2027. A pesquisa Stack Overflow 2025 mostrou que 84% dos desenvolvedores já usam ou planejam usar ferramentas de codificação com IA.
E o próprio Karpathy, que cunhou o termo “vibe coding” em fevereiro de 2025, já declarou que ele está ultrapassado. Em 2026, o termo correto é “agentic engineering”: humanos não escrevem mais a maior parte do código. Eles dirigem, supervisionam e orquestram agentes.
O problema agora não é “o que a IA pode fazer?”. É: como VOCÊ quer moldar a IA para tornar SUA vida extraordinária?
Os Dois Pilares: Eficiência e Excelência
Depois de meses experimentando, cheguei a uma divisão que funciona para mim:
O Pilar da Eficiência (“Just Work”). São as tarefas onde eu deixo a IA assumir o controle quase total. Aceito um resultado “bom o suficiente” para ganhar tempo. Agendamento de compromissos, organização de rotina, emails rotineiros, limpeza de dados, formatação de documentos, monitoramento de repositórios. Eu descrevo a intenção, a IA executa, eu confirmo com uma olhada rápida. Não me importo se o código interno é elegante. Me importo se funciona.
O Pilar da Excelência (“Human Taste”). É onde eu coloco meu dedo, meu julgamento e meu critério de qualidade. Análise estratégica. Comunicação que precisa de voz e tom autênticos. Decisões que exigem ética e contexto que a IA não tem. Criação de conteúdo que eu quero que reflita minha perspectiva, não uma média estatística. É aqui que eu crio algo que a IA, sozinha, não conseguiria.
A tentação é colocar tudo no primeiro pilar. Mas quando tudo é “bom o suficiente”, nada é extraordinário. O gosto humano é o que separa o mediano do memorável.
Do Chatbot Para a Criação de Ferramentas
Uma mudança prática que eu fiz e que recomendo fortemente: pare de usar IA apenas como chatbot. Comece a usá-la para construir ferramentas.
Se você tem um problema recorrente — como organizar a escala de 6 pessoas em turnos diferentes, ou consolidar relatórios semanais de múltiplas fontes, ou monitorar preços de concorrentes —, existem dois caminhos:
O nível básico é jogar os dados num chat e pedir a resposta toda semana. Funciona, mas é manual e não escala.
O nível avançado é usar Claude, ChatGPT ou qualquer agente para construir um mini-app que automatize isso para sempre. Uma ferramenta que roda sozinha, com inputs definidos e outputs estruturados.
E aqui está o ponto transformador: mesmo que você não seja técnico, isso agora é possível. As ferramentas de vibe coding — Lovable, Bolt.new, Replit para prototipagem; Cursor, OpenClaw, Claude Code para desenvolvimento — permitem que você descreva sua intenção e a IA escreva o código para você. Tem gente não-técnica que construiu produtos com receita real de $1M usando Claude Code.
O poder de criar software saiu das mãos exclusivas dos programadores e foi para as mãos de quem tem as melhores perguntas.
O “Estado de Psicose” de Quem Está Prestando Atenção
Karpathy usou uma expressão que me acertou em cheio: ele disse estar em um “estado de psicose” tentando descobrir o que é possível e empurrando os limites. E ele acha que esse estado psicológico é comum entre pesquisadores de fronteira agora.
Eu me identifico. Não no nível dele, obviamente — eu não sou cofundador da OpenAI. Mas essa sensação de que o campo está se movendo tão rápido que, se eu piscar, perco uma oportunidade enorme… essa eu conheço. E aposto que você também.
O antídoto que funcionou para mim foi parar de tentar acompanhar tudo e começar a focar em o que eu quero construir. Não o que é possível em abstrato, mas o que resolve um problema real na minha vida ou no meu trabalho. A lista de possibilidades é infinita. A lista de coisas que realmente importam para mim é bem menor — e muito mais acionável.
Conclusão: O Gosto Humano É a Nova Moeda
Em um mundo onde a IA pode fazer quase tudo, seu bom gosto, seu critério e sua visão se tornam os ativos mais caros do mercado.
Use a IA para o que for mundano, para que você tenha tempo de ser excelente no que realmente importa. Não se afogue tentando dominar toda ferramenta nova. Escolha seus pilares. Defina onde aceita “bom o suficiente” e onde exige excelência. E construa ferramentas — não apenas respostas.
A era de perguntar “o que a IA faz?” ficou em 2025. A pergunta de 2026 é: o que eu quero construir?
E essa pergunta, nenhuma IA pode responder por você.
Compartilhe se isso ressoou:
- Email: fodra@fodra.com.br
- LinkedIn: linkedin.com/in/mauriciofodra
O poder de criar software mudou de mãos. Saiu de quem sabe escrever código para quem sabe fazer as perguntas certas.
Leia Também
- O ‘Fator X’: Por Que Sua Intuição é o Ativo Mais Valioso na Era da IA — Se o gosto humano é a nova moeda, a intuição é o que alimenta esse gosto.
- A Pessoa Mais Valiosa da Empresa em 2026: Você é um ‘Executor’ ou um ‘Arquiteto’? — Construir ferramentas com IA é trabalho de arquiteto, não de executor.
- O Segredo dos Usuários de Elite: Por Que ‘Dizer Não’ à IA é Sua Maior Habilidade — Aceitar “bom o suficiente” no pilar certo e rejeitar no pilar errado é a habilidade-chave.