O Dia Em Que Meu Workflow Ficou 50x Mais Caro

Sexta-feira, 4 de abril de 2026. Eu abro o terminal, conecto o OpenClaw ao Claude, e começo meu dia de trabalho. Ou melhor: tentei começar.

Porque naquela sexta-feira, a Anthropic simplesmente desligou a chave. A partir do meio-dia (PT), assinaturas do Claude Pro ($20/mês) e Max ($100-$200/mês) não serviam mais para alimentar ferramentas de terceiros como o OpenClaw. Se eu quisesse continuar usando, precisava migrar para a API — com cobrança por token.

A conta rápida me deu vertigem. Um jornalista do The Register calculou que durante o mês de março, sua assinatura de $20 rendeu $236 em tokens pelo preço de lista. Outros reportaram proporções ainda mais absurdas — 36x o valor pago. Uma assinatura que custava $20 agora podia se transformar em $1.000+ por mês no modelo pay-as-you-go.

Como disse o gerente de produto de IA Aakash Gupta: “O buffet all-you-can-eat de $20/mês acabou de fechar.”

O Que Aconteceu (A Cronologia Real)

A restrição não veio do nada. Quando eu reconstruí a timeline, ficou claro que era uma estratégia gradual:

Novembro de 2025: OpenClaw (então chamado Clawdbot) é lançado e suporta acesso via tokens OAuth de assinatura do Claude. Tudo funciona perfeitamente.

Janeiro de 2026: Um engenheiro da Anthropic insinua nas redes sociais que a fiscalização vai apertar. Poucos percebem.

14 de fevereiro de 2026: Peter Steinberger, criador do OpenClaw, anuncia que está indo para a OpenAI. Sam Altman publica que Steinberger vai “liderar a próxima geração de agentes pessoais”. OpenClaw é transferido para uma fundação open source.

20 de fevereiro de 2026: A Anthropic atualiza seus termos legais para proibir explicitamente o uso de tokens OAuth de assinatura em ferramentas de terceiros.

4 de abril de 2026: Ban entra em vigor. Boris Cherny, Head do Claude Code na Anthropic, anuncia a mudança no X: “Nossas assinaturas não foram construídas para os padrões de uso dessas ferramentas de terceiros.”

10 de abril de 2026: A Anthropic bane temporariamente a conta do próprio Steinberger por “atividade suspeita” — mesmo ele usando API conforme as novas regras. Após o post viralizar, a conta é restaurada em horas.

A reação de Steinberger não poderia ter sido mais direta: “Primeiro eles copiam features populares para dentro do harness fechado deles, depois trancam o open source para fora.”

Por Que a Anthropic Fez Isso

A explicação oficial é técnica e legítima: as assinaturas estavam subsidiando uso que não tinham sido dimensionadas para suportar. Com mais de 135.000 instâncias do OpenClaw rodando, e cada uma consumindo tokens muito acima do que um usuário normal usaria, a conta simplesmente não fechava. As ferramentas proprietárias da Anthropic (Claude Code, Cowork) são otimizadas para maximizar prompt cache hit rates — ou seja, reutilizar texto processado anteriormente para economizar computação. OpenClaw não fazia isso.

Mas a explicação estratégica é mais reveladora.

A Anthropic comprometeu $100 milhões para seu Claude Partner Network em março de 2026. Lançou um marketplace para software enterprise rodando em Claude. Lançou o Claude Dispatch, que permite controle remoto de agentes — semanas antes de cortar o OpenClaw. O padrão é consistente: a Anthropic quer a receita, os dados e a governança que vem de possuir o relacionamento com o cliente.

E então, como se precisássemos de mais contexto, veio o vazamento.

Conheça o Conway: O Super Agente que Ninguém Deveria Ter Visto

Em 31 de março de 2026 — quatro dias antes do ban do OpenClaw — a Anthropic publicou acidentalmente 512.000 linhas de código-fonte do Claude Code através de um arquivo source map incluído em um pacote npm. Um pesquisador de segurança chamado Chaofan Shou descobriu. O post no X acumulou mais de 28 milhões de visualizações. O código foi baixado, espelhado no GitHub (84.000 estrelas, 82.000 forks) e analisado por milhares de desenvolvedores antes que a Anthropic pudesse emitir um takedown DMCA.

E no meio dessas 512.000 linhas, os desenvolvedores encontraram algo que nunca foi anunciado: o Projeto Conway.

Conway não é uma atualização do Claude. Não é um chatbot melhorado. É uma plataforma de agente persistente — construída para rodar continuamente, em segundo plano, respondendo a triggers externos em vez de esperar input do usuário.

As capacidades reveladas no código:

Memória persistente. Conway não esquece o contexto entre sessões. Ele mantém uma arquitetura de memória de três camadas: um índice leve (MEMORY.md), arquivos de tópicos sob demanda, e transcrições brutas pesquisáveis por grep — nunca recarregadas inteiramente no contexto.

Always-on e ambient. Diferente de todo uso atual do Claude, Conway não é ativado por prompts. Ele roda continuamente, monitorando webhooks, schedules e mudanças de dados. Pode dormir até um sinal externo específico disparar, completar uma tarefa e voltar a dormir — um modelo de custo muito diferente de inferência contínua.

Proativo. Ele toma decisões e executa ações antes de você pedir. Monitorar tickets incoming, checar status de deploy, escanear sites de concorrentes, gerar briefings antes de reuniões — tudo automaticamente.

Extensões proprietárias (.cnw). Conway tem seu próprio formato de extensão — arquivos ZIP que empacotam ferramentas, abas de UI e handlers de contexto. Isso não é um wrapper sobre o Claude. É um ecossistema com camada de configuração formal.

Integração com Chrome. Conway se conecta diretamente ao navegador via extensão do Chrome, mantendo o agente perto de onde você trabalha na web.

Quando você vê Conway, o bloqueio do OpenClaw faz todo sentido. A Anthropic não está apenas protegendo margem. Está abrindo espaço para seu próprio produto de agente persistente — que compete diretamente com o que o OpenClaw oferecia gratuitamente via assinatura.

A “Guerra dos Walled Gardens”

O movimento da Anthropic reflete uma tendência brutal em 2026: as empresas de IA não querem ser apenas o “motor” (o modelo). Querem ser o “carro completo” — a interface, o agente e o ecossistema inteiro.

O Google fez algo similar em fevereiro, bloqueando ferramentas de terceiros de usar OAuth do Gemini CLI. A frase do engenheiro do Google foi quase idêntica à da Anthropic: “usar software de terceiros para extrair ou parasitar a autenticação OAuth do Gemini CLI é violação direta dos termos.”

A interoperabilidade está morrendo. Os jardins murados estão subindo.

O Que Fazer Agora (Alternativas Reais)

Se você, como eu, estava dependendo dessa estrutura, aqui estão os caminhos que testei:

API da Anthropic (pay-as-you-go). Continua sendo o melhor raciocínio do mercado, na minha opinião. Mas o custo muda drasticamente: $3/milhão tokens input e $15/milhão tokens output para o Sonnet 4.6. Para o Opus 4.6, $15 e $75 respectivamente. Cherny publicou PRs para melhorar cache hit rate especificamente para OpenClaw via API — o que ajuda, mas não resolve o salto de preço.

OpenAI Codex/ChatGPT. Integração nativa, ecossistema robusto, e agora com Steinberger liderando agentes pessoais. Quando perguntaram por que ele ainda testa com o Claude, ele respondeu “estou trabalhando nisso” — uma pista sobre o que a OpenAI está preparando.

Modelos abertos locais. Gemma do Google, Nemotron da NVIDIA, Llama da Meta. Liberdade sem taxas de tokens, mas com trade-offs claros de qualidade em tarefas complexas. Para muitas tarefas do “Pilar da Eficiência”, são mais que suficientes.

AWS Bedrock e Google Vertex AI. Acessar Claude via provedores cloud continua funcionando normalmente — sem restrição de assinatura. Se sua empresa já está nesses ecossistemas, pode ser o caminho de menor resistência.

Conclusão: O Que Eu Realmente Penso

Eu entendo a posição da Anthropic. Financeiramente, o modelo era insustentável. Com receita anualizada reportada de $19 bilhões e IPO no horizonte, subsidiar uso massivo de agentes era um risco real.

Mas a execução foi dura. Anunciar na sexta à noite. Dar uma semana de aviso. Banir temporariamente o criador do OpenClaw. Lançar Dispatch semanas antes do corte. A óptica é de empresa que copia features, tranca o open source e depois oferece uma versão proprietária.

Steinberger não errou quando disse: “Uma me recebeu de braços abertos, a outra me mandou ameaças legais” — explicando por que escolheu a OpenAI.

A era de usar agentes de terceiros “na faixa” sob assinaturas baratas está acabando. Se seu workflow depende do Claude, prepare o bolso ou diversifique. O Conway vai chegar — provavelmente ainda em 2026 — e provavelmente vai ser impressionante. Mas vai ter um preço.

E nessa hora, cabe a cada um decidir: pagar o premium ou investir em modelos abertos que te dão liberdade sem pedir permissão.

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Quando a ferramenta que você usa “na faixa” decide cobrar, ela está te dizendo quem é. Acredite.


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